Rede elétrica na Europa — estrutura e gargalos
ENTSO-E e ACER coordenam códigos e adequação na Europa — não operam a rede nem publicam uma fila única; gargalo de conexão é nacional.
Resumo do artigo
- A Europa elétrica não é um único grid nem uma única fila: a ENTSO-E coordena códigos, planejamento e adequação entre dezenas de TSOs, mas a operação em tempo real e as listas de espera de conexão ficam com o TSO e o regulador de cada país.
- A física também divide o continente: existem várias áreas síncronas distintas (Continental Europe, Nordic, Ireland/Northern Ireland, entre outras) — Europa ≠ uma máquina AC só.
- Não há, nas fontes deste dossiê, um dataset pan-europeu de fila de conexão em MW comparável ao das ISOs americanas — o que existe são waitlists e políticas nacionais.
- Irlanda e Países Baixos ilustram isso: gargalos de large load e de conexão em geral aparecem no regulador e no operador nacionais, não em um produto da ENTSO-E ou da ACER.
ENTSO-E e ACER: coordenação, não operador único
A ENTSO-E (European Network of Transmission System Operators for Electricity) é uma associação que reúne 40 TSOs membros de 36 países, com mandato legal sob o direito da União Europeia, para a operação segura e coordenada de um dos maiores sistemas elétricos interconectados do mundo. [1] Isso não faz da ENTSO-E um operador único, no estilo de um ISO continental: a própria página da ENTSO-E sobre operação de sistema afirma que a segurança em tempo real continua sendo a atividade central de cada TSO, e que o System Operations Committee funciona como plataforma de cooperação entre diferentes áreas síncronas — não como uma sala de controle europeia única. [4]
Ao lado da ENTSO-E está a ACER (Agência da União Europeia para a Cooperação dos Reguladores da Energia). O Regulamento (UE) 2019/942 define o propósito da ACER como assistir as autoridades reguladoras nacionais (NRAs) no exercício, ao nível da União, das suas tarefas regulatórias, e, quando necessário, coordenar essa ação e mediar ou resolver divergências entre elas — contribuindo para práticas regulatórias comuns. [2] A ACER não substitui o regulador nacional: quem decide política de conexão em cada país continua sendo a NRA local — a CRU na Irlanda, a ACM nos Países Baixos, e assim por diante, como veremos nos dois hubs mais adiante.
O Artigo 30 do Regulamento (UE) 2019/943 detalha o que cabe à ENTSO-E: desenvolver network codes; adotar e publicar, a cada dois anos, um Ten-Year Network Development Plan (TYNDP) à escala da União — explicitamente não vinculativo; preparar e adotar propostas relacionadas à ERAA (European Resource Adequacy Assessment); adotar o quadro de cooperação dos RCCs (Regional Coordination Centres); e adotar ferramentas comuns de operação de rede. [3] Todos esses são produtos de planejamento, código e adequação — não despacho, nem fila de conexão.
Europa não é uma máquina síncrona só
Um erro fácil de cometer é tratar “a rede europeia” como uma malha AC única. A própria ENTSO-E organiza sua operação de sistema por Regional Groups, alinhados a áreas síncronas distintas — entre elas Continental Europe; Nordic (que reúne Dinamarca Oriental, Finlândia, Noruega e Suécia); e Ireland/Northern Ireland. [4]
A Irlanda é o exemplo mais nítido disso. O EirGrid Data Centre Constrained Area Overview, de maio de 2026, descreve a Irlanda como uma ilha síncrona, com conexões não síncronas (HVDC) limitadas, e afirma explicitamente que o país não está conectado ao sistema elétrico europeu por circuitos AC tradicionais. [5] Isso significa que a física e a política de conexão irlandesas não se dobram ao modelo de uma “Continental Europe AC” única — e é uma das razões por que a Irlanda funciona bem como um dos dois hubs nacionais deste texto.
Adequação: a ERAA e os NRAAs nacionais
A ERAA (European Resource Adequacy Assessment) é o principal produto pan-europeu sobre “a rede vai ter energia suficiente”. O Executive Report da ERAA 2024, na versão aprovada e emendada pela ACER (agosto de 2025), a descreve como uma avaliação pan-europeia probabilística de resource adequacy, com horizonte de até dez anos, no quadro do Regulamento (UE) 2019/943; resultados e necessidades identificadas são dependentes de cenário — não devem ser citados a partir de rascunhos anteriores à aprovação da ACER sem essa ressalva. [6] [7]
Mesmo assim, a ERAA não é o único número que conta. O próprio Executive Report afirma que, em conjunto com avaliações nacionais de adequação de recursos (NRAAs) que identificam preocupações específicas, a ERAA 2024 apoia os Estados-Membros — e que pelo menos 12 Estados-Membros complementam a ERAA com uma NRAA própria, para capturar circunstâncias locais que a avaliação pan-europeia pode não resolver, dado o tamanho e a complexidade do sistema; pressupostos adotados em um país podem afetar os resultados calculados para os vizinhos. [6] Em outras palavras: adequação na Europa é uma leitura em duas camadas — pan-europeia e nacional — e não existe um “número europeu” único de déficit de capacidade que substitua as duas.
Congestionamento cross-zonal: mercado, não fila de conexão
Outro número que circula bastante é o de congestionamento cross-zonal — e vale deixar claro que ele mede acesso ao mercado, não fila de conexão de um projeto novo. O Monitoring Report 2025 da ACER sobre capacidades de comércio cross-zonal recorda que a lei da UE exige que os TSOs ofereçam pelo menos 70% da capacidade física em linhas relevantes para o comércio entre zonas de oferta. Em 2024, os TSOs da região Core disponibilizaram, em média, 54% nas linhas mais congestionadas; ações remediais superaram 60 TWh, a um custo de €4,3 bilhões; e o relatório estima que cumprir o mínimo de 70% na Core, em 2024, teria gerado cerca de €580 milhões em ganhos de bem-estar (welfare). [8]
Essa é a leitura institucional da ACER — atribuída à agência, não um veredito da NiLu sobre o desempenho dos TSOs. Do lado da operação, restrições de segurança de rede, derrogações e períodos de transição limitam quanto de capacidade pode ser oferecida imediatamente em cada linha congestionada; a própria página da TenneT sobre congestionamento na Holanda, que veremos no hub dos Países Baixos, documenta esse tipo de limite operacional levando a listas de espera até o reforço da rede. [8] As duas leituras — eficiência de mercado por um lado, segurança operacional por outro — são perspectivas legítimas e atribuíveis às suas fontes; nenhuma das duas deve ser lida como “a fila de conexão europeia”, porque o que está sendo medido aqui é acesso a capacidade de comércio entre zonas de oferta já existentes, não pedidos de novos projetos aguardando conexão.
TYNDP: os gaps ainda são “for opinion”
O TYNDP à escala da União é, como já vimos, bienal e explicitamente não vinculativo. [3] O TYNDP 2024 Infrastructure Gaps Report, publicado em 9 de abril de 2025 e marcado como for opinion — ou seja, ainda sujeito a comentário e aprovação, não um pacote final —, estima, no framing do próprio estudo, que até 2030 uma capacidade adicional de cerca de 88 GW cross-border e 56 GW de storage minimizaria custos de sistema; até 2040, a estimativa sobe para cerca de 108 GW cross-border adicionais (incluindo aproximadamente 20 GW de híbridos offshore). O relatório também afirma que atingir esse nível de trocas cross-border vai criar novas necessidades de reforço das redes internas nos grids nacionais europeus. [9]
Duas ressalvas importam aqui. Primeiro, o status: enquanto o pacote TYNDP 2024 não for finalizado por ACER, Comissão Europeia e Estados-Membros, esses GW são estimativas de estudo, não uma necessidade de infraestrutura já firmada. Segundo, e mais importante para não confundir seções deste texto: a necessidade de reforço interno mencionada pelo TYNDP é uma consequência geral do aumento de comércio cross-border em nível de planejamento — não é o mesmo mecanismo, nem a mesma decisão, que a política de conexão de data centres de um país específico (como veremos a seguir na Irlanda). Um gap cross-border identificado pela ENTSO-E não é uma bifurcação de reforço nacional decidida por causa de data centers; são duas conversas diferentes, em camadas diferentes.
Hub Irlanda: ilha síncrona sob pressão de data centers
A Irlanda concentra, provavelmente, o exemplo mais documentado de pressão de data centers sobre uma rede nacional na Europa. A CRU (Commission for Regulation of Utilities), em decisão de 12 de dezembro de 2025, afirma que os data centres passaram de cerca de 5% para 22% da procura nacional de eletricidade da Irlanda entre 2015 e 2024; a previsão da EirGrid citada pela CRU projeta a procura de data centres subindo de 9,4 TWh em 2025 para 14,6 TWh em 2034 — cerca de 31% da procura nacional nesse ano. [10]
Para lidar com isso, a política de conexão da CRU exige que novos data centres façam matching de geração despachável ou storage à sua Maximum Import Capacity (MIC) e obtenham pelo menos 80% da sua procura anual a partir de fontes renováveis indígenas adicionais, seguindo um glide path de seis anos; a política também distingue áreas constrained de áreas unconstrained. [10] O EirGrid Data Centre Constrained Area Overview de maio de 2026 dá a escala do problema: o pico all-Ireland fica em torno de 7,5 GW; cerca de 2 GW de data centres já estão contratados (majoritariamente na região da Grande Dublin), quase um terço da procura se plenamente utilizados; e a inteligência de mercado da EirGrid apontava, na mesma publicação, interesse adicional da ordem de 6 GW — número atribuído a market intelligence, não a pedidos formais confirmados. [5]
O processo por trás dessas decisões é nacional, e distinto de qualquer produto pan-europeu: o EirGrid Data Centre Connection Offer Process and Policy (DCCOPP), na sua versão 3 de maio de 2026, documenta o processo de connection offer para data centres na Irlanda, com um limiar operacional citado no próprio pacote a partir de 1 MVA, sob as regras e avaliações do sistema irlandês (incluindo o conceito de área constrained). Não é TYNDP, não é ERAA — é regulação e operação nacionais. [11]
Hub Países Baixos: filas de TSO e de DSO
Nos Países Baixos, a evidência de fila de conexão nacional é ainda mais explícita, porque o operador de transmissão e os operadores de distribuição publicam números formais de lista de espera. A publicação Stand van de Uitvoering da Netbeheer Nederland, de setembro de 2025 (com dados do primeiro semestre daquele ano), reporta, para retirada de energia (offtake): os DSOs regionais somam 14.044 pedidos únicos em lista de espera, totalizando 9.131 MW; a TenneT, como TSO, soma 212 pedidos únicos de offtake, totalizando 38 GW, e, do lado de injeção, 161 pedidos, totalizando 34 GW — incluindo direitos de transporte fixos e alternativos. [12]
A página da TenneT sobre congestionamento na rede holandesa explica o porquê: a procura — de data centres, horticultura, energia solar, entre outros usos — excede a capacidade da rede em muitos locais, resultando em listas de espera até que o reforço seja concluído; o caminho de objeção e regulação, nesse caso, passa pela ACM, o regulador nacional holandês, e não pela ACER como gestora de qualquer fila. [13] É importante notar que os Países Baixos estão na área síncrona Continental Europe e participam da região de cálculo de capacidade (CCR) Core mencionada na seção de congestionamento — mas fazer parte do acoplamento de mercado cross-zonal não equivale a ter capacidade livre de conexão disponível localmente; são duas camadas diferentes da mesma rede.
Vale registrar, como nota de processo e não como um terceiro hub deste ciclo, que a Alemanha também mudou recentemente sua lógica de fila nacional: em comunicado conjunto de 5 de fevereiro de 2026, os quatro TSOs alemães (entre eles a 50Hertz) anunciaram a introdução, a partir de 1º de abril de 2026, de um “Reifegradverfahren” (processo por grau de maturidade) para storage, large loads e data centres, substituindo o critério de first-come-first-served depois de acumular cerca de 717 pedidos de conexão em transmissão, somando aproximadamente 270 GW, até o fim do terceiro trimestre de 2025. [14] O exemplo alemão reforça o ponto central desta seção: cada país resolve sua fila à sua maneira, e nenhuma delas é publicada como um produto único da ENTSO-E.
De fato, em nenhuma das fontes primárias consultadas neste dossiê — ENTSO-E, ACER, legislação da UE, ou os próprios hubs irlandês e holandês — existe um dataset pan-europeu de connection queue, seja de geração ou de carga, comparável às filas publicadas pelas ISOs americanas. O que existe são waitlists e políticas de conexão publicadas por TSO, DSO ou NRA de cada país.
Incertezas
- Não há, nas fontes consultadas, indicação de que vá surgir um dataset oficial pan-europeu de connection queue em MW, publicado por ENTSO-E ou ACER, comparável às filas das ISOs americanas — hoje a resposta a essa pergunta é a ausência documentada, mais os hubs nacionais.
- Não se sabe quanto os números do TYNDP 2024 Infrastructure Gaps Report (cerca de 88, 56 e 108 GW) vão mudar quando o pacote for finalizado por ACER, Comissão Europeia e Estados-Membros — hoje ele permanece marcado como for opinion.
- Não é possível dizer quais resultados de LOLE ou de necessidade de capacidade da ERAA 2024 permanecem estáveis sob cenários alternativos e NRAAs nacionais, versus quais são sensíveis a pressupostos cruzados entre Estados-Membros.
- Não está claro se os heat maps de áreas constrained e unconstrained, citados como forthcoming no pacote da EirGrid de maio de 2026, vão alterar a leitura espacial do gargalo irlandês além do que já está documentado no Constrained Area Overview.
- Este ciclo tratou Irlanda e Países Baixos como os dois hubs de caixa; um detalhamento fino de Nórdicos, Bálticos ou Grã-Bretanha não foi aberto aqui e ficaria para um ciclo seguinte, se necessário.
Referências
- ENTSO-E — Mission Statement. ENTSO-E. Acesso em 09 ago. 2026.
- Regulamento (UE) 2019/942. EUR-Lex. Acesso em 09 ago. 2026.
- Regulamento (UE) 2019/943. EUR-Lex. Acesso em 09 ago. 2026.
- ENTSO-E — System Operations. ENTSO-E. Acesso em 09 ago. 2026.
- EirGrid — Data Centre Constrained Area Overview (maio de 2026). EirGrid. Acesso em 09 ago. 2026.
- ERAA 2024 Executive Report (versão aprovada e emendada pela ACER, agosto de 2025). ENTSO-E. Acesso em 09 ago. 2026.
- ACER — Decision 07/2025 on ERAA 2024. ACER. Acesso em 09 ago. 2026.
- ACER — Monitoring Report 2025: Cross-Zonal Electricity Trade Capacities. ACER. Acesso em 09 ago. 2026.
- ENTSO-E — TYNDP 2024 Infrastructure Gaps Report (for opinion, 9 abr. 2025). ENTSO-E. Acesso em 09 ago. 2026.
- CRU — The CRU Publishes Its Decision on New Electricity Connection Policy for Data Centres (12 dez. 2025). Commission for Regulation of Utilities. Acesso em 09 ago. 2026.
- EirGrid — Data Centre Connection Offer Process and Policy, v3 (maio de 2026). EirGrid. Acesso em 09 ago. 2026.
- Netbeheer Nederland — Stand van de Uitvoering, halfjaarpublicatie (set. 2025). Netbeheer Nederland. Acesso em 09 ago. 2026.
- TenneT — Congestion of the Grid. TenneT. Acesso em 09 ago. 2026.
- 50Hertz et al. — Comunicado sobre o Reifegradverfahren (5 fev. 2026). 50Hertz. Acesso em 09 ago. 2026.